Quinta-feira, 15 de Outubro de 2015

Um-doi-erdo-eito

Ouviam-se vozes de comando; ordens curtas, deturpadas na linguagem, mas regidas no compasso.

Botas que nem metrónomos batiam no chão, ritmadas nas secas pancadas.

Meninas que não dominavam política eram elogiadas: pelos lavores; pelas rendas, bordados e lindas telas que gastaram tintas onde pacientes gestos de pincel marcavam desejos de paz.

No remetente das suas cartas de amor encorajavam ânimo, quando beijavam as flores que derramavam sangue dos espinhos que as rasgavam.

No fim, quando já não havia sementes acabou o que nunca devia ter iniciado.

Então, as delicadas agulhas e os finos pinceis deram lugar a rudes instrumentos, que fabricavam outros tantos iguais, num processo de clonagem.

Era o início do Verão. Os sinos tocaram alegria. Celebrou-se o fim, mas era o fim de algo que haveria de continuar por muito mais tempo; fome e solidão.

Mães e filhas esqueceram-se de ser mães de outros mais, que iriam bater com as botas no chão, ao compasso de sons, de palavras deturpadas na linguagem: “um, doi, erdo, eito...”

© Augusto Brilhante Ribeiro

publicado por Augusto Brilhante Ribeiro às 00:00
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